
Ficha Técnica:
Autor: José Saramago
Título: "As Pequenas Memórias"
Editora: Caminho
Local de edição: Lisboa
Data de publicação: Novembro, 2006
Edição: 1ª
Categoria: Autobiografia
Compreensão:
O livro “As Pequenas Memórias” oferece-nos a história autobiográfica do autor. São abordadas, simplesmente, as suas infância e adolescência.
Numa sucessão de curtos fragmentos das suas memórias, é-nos apresentado um ininterrupto fluir de lembranças, sem qualquer organização lógica, que parecem meramente surgir ao autor no instante da escrita.
Uma vida iniciada na Azinhaga, com peripécias em Lisboa e no Ribatejo, José Saramago deposita toda a sua alma nesta obra, revelando-nos os momentos que fizeram dele o célebre senhor que hoje conhecemos.
Desde os detalhes mais humilhantes que toda a criança tem até à perda da pureza na adolescência, este é um Saramago mais que autobiográfico: extremamente pessoal e íntimo, uma espécie de diário sentimental.
Interpretação:
Com a única intenção de dar a conhecer as origens íntimas do homem que é actualmente, José Saramago criou esta autobiografia, que representa um registo trabalhado sobre o início da sua existência.Numa linha totalmente diferente das críticas sociais com que já caracterizava o autor e que estão presentes em obras exploradas anteriormente, “Memorial do Convento” e “A Viagem Do Elefante”, o nobel português mostra unicamente o seu lado afectivo e familiar na obra em questão.
Contudo, Saramago é único, ímpar, e o título do livro é suficiente para explicar o que podemos encontrar na exploração do mesmo: “As Pequenas Memórias” – um trocadilho genial, se tivermos em consideração que não são as memórias que são pequenas. De facto, as memórias não podem ser medidas… A explicação é simples: o autor escreveu as recordações de quando era pequeno.
Durante toda a obra, José Saramago expressa a elevada relevância que os seus laços familiares tiveram em toda a sua educação. Isto porque, segundo o próprio “(…) se não somos a criança que fomos, pelo menos a criança que fomos gerou a pessoa que somos”.
Reacção Afectiva:
“As Pequenas Memórias” foi a terceira obra que explorei do conceituado prémio nobel português José Saramago. Tal escolha deveu-se ao facto de apreciar imensamente o autor e por influência de várias opiniões. É óbvio que, seguidamente a saber que se tratava de uma autobiografia, fiquei deveras curiosa. Afinal, Saramago sempre primou pela diferença, pela originalidade. Sendo assim, o que há a descobrir e sentir na sua autobiografia? Para além disso, e como já referi anteriormente, podemos aprender muito com a leitura. Neste caso, é fácil de nos deixarmos embevecer pelas emoções de uma metáfora e pela comicidade de uma profunda ironia.
Nesta obra, José Saramago presenteia-nos com todas as suas marcas características, num plano bem mais suave. Preocupando-se com o conteúdo sentimental de cada episódio da sua vida narrado no livro, deparamo-nos com um Saramago menino, não só na acção como também na forma de escrever. Nesta obra, em comparação com outras já exploradas, o tom irónico quase passa despercebido ao leitor, que fica totalmente envolvido nos sonhos puros e atitudes ternas da criança inocente.
Numa obra de Saramago, é-me impossível escolher um excerto preferido. No entanto, quero destacar o momento nostálgico, quase filosófico, entre avó e neto:
“Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.” – Página 131
Esta memória de Saramago é também minha. Não na totalidade, mas com diferenças insignificantes, se nos concentrarmos no que realmente importa no episódio: a cumplicidade entre os dois intervenientes.
Pessoalmente, quero realçar tudo o que a leitura da obra em mim despertou: lembranças, emoções, saudades, nostalgia… Quem não sente falta de ser criança? Quem não fica perdido em pensamentos nostálgicos ao recordar-se da sua fase da vida mais pura, mais verdadeira, mais natural? Quem não tem saudades de ver o olhar caloroso e meigo do avô, o amigo educador que mais se assemelha a nós e nos compreende?
Pensava eu que José Saramago não poderia voltar a surpreender-me... É certo que, na complexidade e plenitude de escrita não o fez. No entanto, é possível sentirmos as saudades que Saramago tem de ser criança, a forte vontade de voltar àqueles tempos que lhe percorre a alma. Sinceramente, estava certa de que iria encontrar uma obra com a descrição dos grandes acontecimentos mundiais vistos pelos olhos do autor, ou então os seus próprios momentos vitoriosos. Porém, Saramago é diferente. Sempre e em tudo. É melhor e, com “As Pequenas Memórias”, permitiu-me conhecer a criança que ele foi, o que me fez relembrar, com enternecimento, os meus próprios anos de infância, não tão longínquos quanto isso.
Nesta obra, José Saramago presenteia-nos com todas as suas marcas características, num plano bem mais suave. Preocupando-se com o conteúdo sentimental de cada episódio da sua vida narrado no livro, deparamo-nos com um Saramago menino, não só na acção como também na forma de escrever. Nesta obra, em comparação com outras já exploradas, o tom irónico quase passa despercebido ao leitor, que fica totalmente envolvido nos sonhos puros e atitudes ternas da criança inocente.
Numa obra de Saramago, é-me impossível escolher um excerto preferido. No entanto, quero destacar o momento nostálgico, quase filosófico, entre avó e neto:
“Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.” – Página 131
Esta memória de Saramago é também minha. Não na totalidade, mas com diferenças insignificantes, se nos concentrarmos no que realmente importa no episódio: a cumplicidade entre os dois intervenientes.
Pessoalmente, quero realçar tudo o que a leitura da obra em mim despertou: lembranças, emoções, saudades, nostalgia… Quem não sente falta de ser criança? Quem não fica perdido em pensamentos nostálgicos ao recordar-se da sua fase da vida mais pura, mais verdadeira, mais natural? Quem não tem saudades de ver o olhar caloroso e meigo do avô, o amigo educador que mais se assemelha a nós e nos compreende?
Pensava eu que José Saramago não poderia voltar a surpreender-me... É certo que, na complexidade e plenitude de escrita não o fez. No entanto, é possível sentirmos as saudades que Saramago tem de ser criança, a forte vontade de voltar àqueles tempos que lhe percorre a alma. Sinceramente, estava certa de que iria encontrar uma obra com a descrição dos grandes acontecimentos mundiais vistos pelos olhos do autor, ou então os seus próprios momentos vitoriosos. Porém, Saramago é diferente. Sempre e em tudo. É melhor e, com “As Pequenas Memórias”, permitiu-me conhecer a criança que ele foi, o que me fez relembrar, com enternecimento, os meus próprios anos de infância, não tão longínquos quanto isso.
Apreciação Estética:
No decorrer de toda a acção são-nos apresentados registos de língua popular, familiar e cuidado, de forma original e adequada, temperados com um suave tom irónico e emocional, provocando um harmonioso momento de nostalgia no leitor.
Analisando toda a narrativa, é de acentuar, novamente, a simplicidade da obra, relativamente às restantes obras do autor. O conteúdo informativo não merece qualquer destaque. Não contém informação histórica, social ou cultural. Só descrições de memórias! Estamos perante o nobel da literatura e, por isso, a ausência de pontuação e de maiúsculas obrigam, mais uma vez, os leitores a concentrarem-se na obra diante deles.
O narrador é preferencialmente homodiegético:
“Porquê este meu temor aos cães? Porquê esta minha fascinação pelos cavalos? O receio, que hoje ainda, apesar de algumas harmoniosas experiências vividas nos últimos tempos, mal consigo dominar quando me vejo perante um representante desconhecido da espécie canina, vem-me, tenho a certeza, daquele pânico desabalado que senti, teria uns sete anos, quando, ao princípio da noite (…)” – Página 24
Todavia, e apesar de se tratar de uma autobiografia, por vezes, o narrador é heterodiegético:
“Ao lado de tão superiores façanhas, o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascensão à ponta extrema do freixo de vinte metros (…)” – Página 20
Além de ser maioritariamente homodiegético, o narrador revela todos os seus sentimentos na obra, mostrando, por exemplo, a preferência por Azinhaga ao invés de Lisboa.
Durante todo o livro, a narrativa é apresentada sempre com base nas recordações de infância, tanto as mais felizes como as mais dolorosas.
Analisando toda a narrativa, é de acentuar, novamente, a simplicidade da obra, relativamente às restantes obras do autor. O conteúdo informativo não merece qualquer destaque. Não contém informação histórica, social ou cultural. Só descrições de memórias! Estamos perante o nobel da literatura e, por isso, a ausência de pontuação e de maiúsculas obrigam, mais uma vez, os leitores a concentrarem-se na obra diante deles.
O narrador é preferencialmente homodiegético:
“Porquê este meu temor aos cães? Porquê esta minha fascinação pelos cavalos? O receio, que hoje ainda, apesar de algumas harmoniosas experiências vividas nos últimos tempos, mal consigo dominar quando me vejo perante um representante desconhecido da espécie canina, vem-me, tenho a certeza, daquele pânico desabalado que senti, teria uns sete anos, quando, ao princípio da noite (…)” – Página 24
Todavia, e apesar de se tratar de uma autobiografia, por vezes, o narrador é heterodiegético:
“Ao lado de tão superiores façanhas, o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascensão à ponta extrema do freixo de vinte metros (…)” – Página 20
Além de ser maioritariamente homodiegético, o narrador revela todos os seus sentimentos na obra, mostrando, por exemplo, a preferência por Azinhaga ao invés de Lisboa.
Durante todo o livro, a narrativa é apresentada sempre com base nas recordações de infância, tanto as mais felizes como as mais dolorosas.
"Deixa-te levar pela criança que foste."

3 comentários:
vamos sim para o artes =D
voces tinham razao, é melhor assim, nao haver nada =S
aprecio bastante a escrita desse senhor! (vénia) :-)
nao ha nada pa aproveitar x)
infelizmente x)
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