CLICK HERE FOR BLOGGER TEMPLATES AND MYSPACE LAYOUTS »

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

"O Sonho Mais Doce"



Ficha Técnica:
Autora: Doris Lessing
Título: "O Sonho Mais Doce"
Editora: Editorial Presença
Local de edição: Lisboa
Data de publicação: Outubro, 2007
Edição: 2ª
Categoria: Romance


Compreensão:
O livro “O Sonho Mais Doce” revela-nos a história de uma família, Lennox, ao longo de três gerações.
O enredo centra-se, essencialmente, na década de 60, altura em que Frances Lennox vive com os seus dois filhos na casa da sua ex-sogra, Julia Lennox. A dada altura, o seu ex-marido, Johnny Lennox, pede-lhe que acolha no seu lar a sua filha, Sylvia, fruto da relação com a sua segunda esposa. Ao longo da obra, somos confrontados com as grandes, mas contrastantes, personalidades destas três mulheres.
Durante todo o convívio familiar acolhedor, todos os intervenientes se sentem invadidos pelas sensações de esperança e sonho, mesmo sabendo que essa ilusão acarreta enormes consequências.

Interpretação:
O livro realça essencialmente as acentuadas diferenças entre as personalidades dos homens e das mulheres, salientando sempre o facto de estarmos perante uma sociedade inglesa dos anos 60. A autora do romance chega mesmo a reprovar a obsessão de alguns jovens idealistas em crenças políticas.
Pelo título da obra somos levados a acreditar que estamos perante uma história de “contos de fadas”, em que o sonho se vai tornar realidade. Contudo, Doris Lessing atreveu-se a ir muito mais longe, lembrando-nos que tudo na vida tem um preço, até mesmo a fantasia. Um preço que nem sempre conseguimos nem queremos pagar.
Durante todo o romance, a narradora expressa a elevada relevância da família e do tipo de educação que cada pessoa recebe. Ao realizarmos uma análise relativa à obra e comparando a história das três mulheres protagonistas e do homem mais influente no romance, percebemos as razões pelas quais a narradora tanto critica a influência da política na vida dos partidários. Enquanto Julia, Frances e Sylvia aprendem a adaptarem-se às vicissitudes da vida, o camarada Johnny simplesmente se limita a livrar-se dos seus problemas, colocando a responsabilidade dos mesmos nos outros.

Reacção Afectiva:
"O Sonho Mais Doce" foi o primeiro livro que estudei da conceituada escritora iraniana, Doris Lessing.
A leitura deste romance sucedeu devido à enorme curiosidade que sentia por conhecer uma obra de um autor estrangeiro, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Apesar de não estar ordenado cronologicamente e de conter detalhes de factos históricos e políticos que não despertam minimamente o meu interesse, o romance revelou-se uma grande surpresa, à medida que o ia explorando. Envolto em dramas familiares e preconceitos sociais, apercebemo-nos em cada página de que estamos perante um ensinamento de valor morais, bem úteis ao nosso quotidiano. O sarcasmo das personagens, a sua paixão pela vida, os seus limites económicos, os seus problemas emocionais e inerentes consequências, a sua generosidade e toda a lealdade para com os seus princípios mais básicos são factores que merecem aplausos e um grande reconhecimento de qualquer leitor, acabando por se deixar envolver pela temática e desenrolar da intriga.
Por abordar temas tão característicos da época em questão, como a guerra fria, o nazismo, as drogas, o surgimento da SIDA em África, a depressão e a anorexia, “O Sonho Mais Doce” levou-me a reflectir sobre os comportamentos e atitudes descritos que as pessoas tinham nas suas relações amorosas, familiares e sociais.
De todos os momentos da obra, fiquei simplesmente feliz quando me deparei com o primeiro instante em que o livro mostrava a existência de amor e calor humano, numa família em que tudo parecia perdido:
“O quarto era grande e estava mobilado com sólidos móveis antigos e alguns bonitos candeeiros chineses. Andrew era o habitante errado para aquele quarto, e Frances não pôde deixar de recordar o marido de Julia, o diplomata, que com certeza se sentiria ali à vontade.
- Vieste para me pregar um sermão? Não te incomodes; a Julia já se encarregou disso.
- Estou preocupada – disse Frances, com a voz a tremer; anos, décadas de preocupação estavam a acumular-se na sua garganta.
Andrew levantou a cabeça da almofada, para a observar. Não com inimizade, antes com enfado.
- Assusto-me a mim próprio – confessou. – Mas acho que estou prestes a controlar-me.
- Estás, Andrew? Estás realmente?
- No fim de contas, não se trata de heroína, ou cocaína, ou… no fim de contas, não há esconderijos de frascos vazios a rebolar debaixo da cama.
Na verdade, havia lá espalhados alguns pequenos comprimidos azuis.
- O que são, então, aqueles pequenos comprimidos azuis?
- Ah, os pequenos comprimidos azuis. Anfetaminas. Não te preocupas com eles.
- E – disse Frances, citando e esforçando-se, em vão, por parecer irónica – não são viciantes e podes largá-los quando quiseres.
- Lá isso não sei. Mas penso que estou viciado… em erva. Não há dúvida de que tira o gume da realidade. Por que não experimentas?
- Já experimentei. A mim não me faz nada.
- É pena, pois eu diria que tens mais realidade do que aquela com que podes haver-te.
Como ele não disse mais nada, ela esperou um pouco e depois levantou-se para sair. Quando fechou a porta, ouviu-o dizer:
- Obrigado por teres vindo, mãe. Volta mais vezes.
Seria possível que ele quisesse a sua «interferência»… que tivesse estado à espera de que o visitasse, quisesse falar?
Agora, nesta noite, sentia os laços existentes entre ela e os seus dois filhos, mas era tudo terrível; os três estavam unidos, esta noite, pela decepção, por um golpe que se abatera onde já antes fora desfechado.” – páginas 28 e 29.

Apreciação Estética:
Ao longo de toda a obra são-nos apresentados registos de língua familiar, cuidada e literária, de forma adequada à situação retratada, juntamente com um tom plangente e, por vezes, esperançoso e irónico.
Considerando todo o conjunto formado pela narrativa e a intriga em si, estas são relativamente interessantes, já que contêm, além de um romance dramático, vários conteúdos históricos, narrativos e informativos da vida social e familiar durante as I e II Grandes Guerras.
O narrador é heterodiegético na íntegra, mostrando, contudo, uma certa parcialidade contra as atitudes de Johnny Lennox.
Ao longo do livro, a acção é apresentada sempre baseada na vida das três mulheres e do efeito que as atitudes de Johnny tiveram na vida delas.