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domingo, 31 de maio de 2009

"As Pequenas Memórias"



Ficha Técnica:
Autor: José Saramago
Título: "As Pequenas Memórias"
Editora: Caminho
Local de edição: Lisboa
Data de publicação: Novembro, 2006
Edição: 1ª
Categoria: Autobiografia


Compreensão:
O livro “As Pequenas Memórias” oferece-nos a história autobiográfica do autor. São abordadas, simplesmente, as suas infância e adolescência.
Numa sucessão de curtos fragmentos das suas memórias, é-nos apresentado um ininterrupto fluir de lembranças, sem qualquer organização lógica, que parecem meramente surgir ao autor no instante da escrita.
Uma vida iniciada na Azinhaga, com peripécias em Lisboa e no Ribatejo, José Saramago deposita toda a sua alma nesta obra, revelando-nos os momentos que fizeram dele o célebre senhor que hoje conhecemos.
Desde os detalhes mais humilhantes que toda a criança tem até à perda da pureza na adolescência, este é um Saramago mais que autobiográfico: extremamente pessoal e íntimo, uma espécie de diário sentimental.



Interpretação:
Com a única intenção de dar a conhecer as origens íntimas do homem que é actualmente, José Saramago criou esta autobiografia, que representa um registo trabalhado sobre o início da sua existência.
Numa linha totalmente diferente das críticas sociais com que já caracterizava o autor e que estão presentes em obras exploradas anteriormente, “Memorial do Convento” e “A Viagem Do Elefante”, o nobel português mostra unicamente o seu lado afectivo e familiar na obra em questão.
Contudo, Saramago é único, ímpar, e o título do livro é suficiente para explicar o que podemos encontrar na exploração do mesmo: “As Pequenas Memórias” – um trocadilho genial, se tivermos em consideração que não são as memórias que são pequenas. De facto, as memórias não podem ser medidas… A explicação é simples: o autor escreveu as recordações de quando era pequeno.
Durante toda a obra, José Saramago expressa a elevada relevância que os seus laços familiares tiveram em toda a sua educação. Isto porque, segundo o próprio “(…) se não somos a criança que fomos, pelo menos a criança que fomos gerou a pessoa que somos”.



Reacção Afectiva:
“As Pequenas Memórias” foi a terceira obra que explorei do conceituado prémio nobel português José Saramago. Tal escolha deveu-se ao facto de apreciar imensamente o autor e por influência de várias opiniões. É óbvio que, seguidamente a saber que se tratava de uma autobiografia, fiquei deveras curiosa. Afinal, Saramago sempre primou pela diferença, pela originalidade. Sendo assim, o que há a descobrir e sentir na sua autobiografia? Para além disso, e como já referi anteriormente, podemos aprender muito com a leitura. Neste caso, é fácil de nos deixarmos embevecer pelas emoções de uma metáfora e pela comicidade de uma profunda ironia.
Nesta obra, José Saramago presenteia-nos com todas as suas marcas características, num plano bem mais suave. Preocupando-se com o conteúdo sentimental de cada episódio da sua vida narrado no livro, deparamo-nos com um Saramago menino, não só na acção como também na forma de escrever. Nesta obra, em comparação com outras já exploradas, o tom irónico quase passa despercebido ao leitor, que fica totalmente envolvido nos sonhos puros e atitudes ternas da criança inocente.

Numa obra de Saramago, é-me impossível escolher um excerto preferido. No entanto, quero destacar o momento nostálgico, quase filosófico, entre avó e neto:

“Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.” – Página 131


Esta memória de Saramago é também minha. Não na totalidade, mas com diferenças insignificantes, se nos concentrarmos no que realmente importa no episódio: a cumplicidade entre os dois intervenientes.
Pessoalmente, quero realçar tudo o que a leitura da obra em mim despertou: lembranças, emoções, saudades, nostalgia… Quem não sente falta de ser criança? Quem não fica perdido em pensamentos nostálgicos ao recordar-se da sua fase da vida mais pura, mais verdadeira, mais natural? Quem não tem saudades de ver o olhar caloroso e meigo do avô, o amigo educador que mais se assemelha a nós e nos compreende?
Pensava eu que José Saramago não poderia voltar a surpreender-me... É certo que, na complexidade e plenitude de escrita não o fez. No entanto, é possível sentirmos as saudades que Saramago tem de ser criança, a forte vontade de voltar àqueles tempos que lhe percorre a alma. Sinceramente, estava certa de que iria encontrar uma obra com a descrição dos grandes acontecimentos mundiais vistos pelos olhos do autor, ou então os seus próprios momentos vitoriosos. Porém, Saramago é diferente. Sempre e em tudo. É melhor e, com “As Pequenas Memórias”, permitiu-me conhecer a criança que ele foi, o que me fez relembrar, com enternecimento, os meus próprios anos de infância, não tão longínquos quanto isso.


Apreciação Estética:
No decorrer de toda a acção são-nos apresentados registos de língua popular, familiar e cuidado, de forma original e adequada, temperados com um suave tom irónico e emocional, provocando um harmonioso momento de nostalgia no leitor.
Analisando toda a narrativa, é de acentuar, novamente, a simplicidade da obra, relativamente às restantes obras do autor. O conteúdo informativo não merece qualquer destaque. Não contém informação histórica, social ou cultural. Só descrições de memórias! Estamos perante o nobel da literatura e, por isso, a ausência de pontuação e de maiúsculas obrigam, mais uma vez, os leitores a concentrarem-se na obra diante deles.
O narrador é preferencialmente homodiegético:
“Porquê este meu temor aos cães? Porquê esta minha fascinação pelos cavalos? O receio, que hoje ainda, apesar de algumas harmoniosas experiências vividas nos últimos tempos, mal consigo dominar quando me vejo perante um representante desconhecido da espécie canina, vem-me, tenho a certeza, daquele pânico desabalado que senti, teria uns sete anos, quando, ao princípio da noite (…)” – Página 24

Todavia, e apesar de se tratar de uma autobiografia, por vezes, o narrador é heterodiegético:
“Ao lado de tão superiores façanhas, o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascensão à ponta extrema do freixo de vinte metros (…)” – Página 20

Além de ser maioritariamente homodiegético, o narrador revela todos os seus sentimentos na obra, mostrando, por exemplo, a preferência por Azinhaga ao invés de Lisboa.
Durante todo o livro, a narrativa é apresentada sempre com base nas recordações de infância, tanto as mais felizes como as mais dolorosas.

"Deixa-te levar pela criança que foste."

quinta-feira, 5 de março de 2009

"A Viagem Do Elefante"



Ficha Técnica:
Autor: José Saramago
Título: "A Viagem Do Elefante"
Editora: Caminho
Local de edição: Lisboa
Ano de publicação: Outubro, 2008
Edição: 1ª


Compreensão:
A obra “A Viagem Do Elefante” apresenta-nos a história de Salomão, um elefante indiano oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano II da Áustria, seu primo.
Há factos históricos que testemunham a existência desta oferta, em meados do século XVI. O rei, juntamente com a rainha de Portugal, Catarina d’Áustria, decidem, certa noite, em 1551, presentear o seu primo com o quadrúpede que alguns anos antes chegara de Goa acompanhado pelo seu tratador, Subhro.
Através de estradas desertas e rios lamacentos, por aldeias acolhedoras e humildes, entre as calorosas planícies e os gélidos planaltos, vemos Salomão percorrer Portugal, Espanha e Itália, chegando, por fim, ao seu destino, observando impávido a nova vida que o espera: os estreitos desfiladeiros dos Alpes.

Interpretação:
O romance, brilhantemente elaborado, mostra-nos uma experiência irrelevante de um animal irracional. Tal como no “Memorial do Convento”, a camada nobre é criticada de maneira subtil e irónica, havendo momentos em que chega mesmo a ser ridicularizada. Em contrapartida, o tratador do elefante é apresentado como sendo inteligente, entendedor das suas funções e com um papel útil ao longo de toda a jornada. Para além deste, até Salomão consegue fazer dos súbditos do rei os seus “fantoches”, pois todos os horários e velocidade de locomoção são determinados consoante as vontades e capacidades do mesmo.
Porém, esta obra não se limita à expedição de meia corte com o elefante. Pelo título do livro somos, sem dúvida alguma, induzidos a pensar que esta é uma simples aventura de um animal estimado pela realeza portuguesa e que, por isso, a sua partida merece destaque. No entanto, José Saramago ousa confeccionar esta história para fazer ver a todos os leitores “a mais banal de todas as sínteses”: ninguém foge ao seu destino. E enquanto o elefante testemunha esse facto por experiência própria, o rei simplesmente agradece a Deus por se ver livre do fardo que é mandar cuidar de um “paquiderme”…

Reacção Afectiva:
“A Viagem Do Elefante” foi a segunda obra que analisei do prestigiado prémio nobel português José Saramago.
A exploração deste romance deveu-se, em grande parte, à profunda admiração que nutro pelo autor, desencadeada pelo livro “Memorial Do Convento”. A minha fome de adquirir uma maior destreza em termos de percepção e construção de recursos expressivos também me levou à procura desta obra. Afinal, haverá alguém melhor para nos ensinar do que o mestre das ironias, comparações e metáforas?
Em “A Viagem Do Elefante”, José Saramago brinda-nos com todas essas suas marcas características, num plano ainda mais forte. Numa maneira muito arriscada, o autor levou tudo o que lhe é minuciosamente peculiar ao extremo.
Embrulhada em momentos cómicos, o autor escolhe um facto verídico como ponto de partida para criar uma obra ficcional, adequada à sua já reconhecida prodigiosa imaginação: um elefante viaja de Lisboa a Viena, a sua meta; todos nós andamos nesta montanha-russa que é a vida, acabando sempre por chegar ao mesmo fim - a morte.
Centralizando novamente o autor, é de admirar a tremenda qualidade deste livro, concretizado em estado de elevada debilidade física. José Saramago regressou com uma obra espantosa pela alegria prolongada, humor transbordante, ideias mirabolantes, lições de amizade e críticas social, política e religiosa, suavizadas com ironias apaixonantes. Há que salientar que estes foram os ingredientes imprescindíveis para Saramago, ao falar-nos da morte, nos provocar uma certa misteriosa felicidade.


Posteriormente à análise do romance, escolhi destacar diversos momentos da acção, pelas boas camadas de humor e ironia:

“Habituado aos exageros sensoriais da rainha, o rei encolheu os ombros e regressou à espinhosa tarefa de descobrir um presente capaz de satisfazer o arquiduque maximiliano de Áustria.” – Páginas 14 e 15

“Ajudai-me a descer, esta conversa fez-me tonturas. Com a ajuda do secretário e dos dois pajens, o rei logrou descer sem maiores dificuldades os poucos degraus que havia subido. Respirou fundo quando sentiu terra firme debaixo dos pés e, sem motivo aparente, salvo, digamos talvez, já que é ainda demasiado cedo para sabê-lo de ciência certa, a súbita oxigenação do sangue e o consequente renovo da circulação nos interiores da cabeça, fê-lo pensar em algo que em circunstâncias normais seguramente nunca lhe ocorreria.” – Página 25

“A rainha sorriu também, ao mesmo tempo que juntava as mãos num gesto de agradecimento que, passando em primeiro lugar pelo arquiduque maximiliano de áustria, tinha a deus todo-poderoso como último destinatário. As contradições que andavam a digladiar-se no íntimo da rainha haviam chegado a uma síntese, a mais banal de todas, ou seja, que ninguém foge ao seu destino.” – Página 29

Neste último extracto está presente conjuntamente o primeiro momento em que é perceptível as verdadeiras moral e essência da acção.

Apreciação Estética:
Ao longo de toda a obra são-nos apresentados registos de língua popular, familiar e cuidado, de forma sempre original e adequada, condimentados com um fortíssimo tom irónico e humorístico.
Examinando toda a narrativa, é de acentuar a intriga verdadeiramente original e cativante, colocada em palavras humorísticas e conotadas em críticas sociais. Em todas as frases, até mesmo nas mais curtas, é possível encontrar um segundo significado nas palavras, que, desse modo, humorizam a obra. Em “A Viagem Do Elefante”, a falta de pontuação e de maiúsculas obrigam, mais uma vez, os leitores a concentrarem-se na obra diante deles.
O narrador é preferencialmente heterodiegético, sendo que, por vezes, quando assume o pensamento de algumas personagens, homodiegético. Além disso, revela uma parcialidade a favor do Subhro, o tratador do elefante Salomão. São profundas as constantes críticas pessoais à corte e a favor do pajem.
Durante todo o livro, a narrativa é apresentada sempre com base nos difíceis e longos trilhos que o elefante percorre.