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quinta-feira, 5 de março de 2009

"A Viagem Do Elefante"



Ficha Técnica:
Autor: José Saramago
Título: "A Viagem Do Elefante"
Editora: Caminho
Local de edição: Lisboa
Ano de publicação: Outubro, 2008
Edição: 1ª


Compreensão:
A obra “A Viagem Do Elefante” apresenta-nos a história de Salomão, um elefante indiano oferecido por D. João III ao arquiduque Maximiliano II da Áustria, seu primo.
Há factos históricos que testemunham a existência desta oferta, em meados do século XVI. O rei, juntamente com a rainha de Portugal, Catarina d’Áustria, decidem, certa noite, em 1551, presentear o seu primo com o quadrúpede que alguns anos antes chegara de Goa acompanhado pelo seu tratador, Subhro.
Através de estradas desertas e rios lamacentos, por aldeias acolhedoras e humildes, entre as calorosas planícies e os gélidos planaltos, vemos Salomão percorrer Portugal, Espanha e Itália, chegando, por fim, ao seu destino, observando impávido a nova vida que o espera: os estreitos desfiladeiros dos Alpes.

Interpretação:
O romance, brilhantemente elaborado, mostra-nos uma experiência irrelevante de um animal irracional. Tal como no “Memorial do Convento”, a camada nobre é criticada de maneira subtil e irónica, havendo momentos em que chega mesmo a ser ridicularizada. Em contrapartida, o tratador do elefante é apresentado como sendo inteligente, entendedor das suas funções e com um papel útil ao longo de toda a jornada. Para além deste, até Salomão consegue fazer dos súbditos do rei os seus “fantoches”, pois todos os horários e velocidade de locomoção são determinados consoante as vontades e capacidades do mesmo.
Porém, esta obra não se limita à expedição de meia corte com o elefante. Pelo título do livro somos, sem dúvida alguma, induzidos a pensar que esta é uma simples aventura de um animal estimado pela realeza portuguesa e que, por isso, a sua partida merece destaque. No entanto, José Saramago ousa confeccionar esta história para fazer ver a todos os leitores “a mais banal de todas as sínteses”: ninguém foge ao seu destino. E enquanto o elefante testemunha esse facto por experiência própria, o rei simplesmente agradece a Deus por se ver livre do fardo que é mandar cuidar de um “paquiderme”…

Reacção Afectiva:
“A Viagem Do Elefante” foi a segunda obra que analisei do prestigiado prémio nobel português José Saramago.
A exploração deste romance deveu-se, em grande parte, à profunda admiração que nutro pelo autor, desencadeada pelo livro “Memorial Do Convento”. A minha fome de adquirir uma maior destreza em termos de percepção e construção de recursos expressivos também me levou à procura desta obra. Afinal, haverá alguém melhor para nos ensinar do que o mestre das ironias, comparações e metáforas?
Em “A Viagem Do Elefante”, José Saramago brinda-nos com todas essas suas marcas características, num plano ainda mais forte. Numa maneira muito arriscada, o autor levou tudo o que lhe é minuciosamente peculiar ao extremo.
Embrulhada em momentos cómicos, o autor escolhe um facto verídico como ponto de partida para criar uma obra ficcional, adequada à sua já reconhecida prodigiosa imaginação: um elefante viaja de Lisboa a Viena, a sua meta; todos nós andamos nesta montanha-russa que é a vida, acabando sempre por chegar ao mesmo fim - a morte.
Centralizando novamente o autor, é de admirar a tremenda qualidade deste livro, concretizado em estado de elevada debilidade física. José Saramago regressou com uma obra espantosa pela alegria prolongada, humor transbordante, ideias mirabolantes, lições de amizade e críticas social, política e religiosa, suavizadas com ironias apaixonantes. Há que salientar que estes foram os ingredientes imprescindíveis para Saramago, ao falar-nos da morte, nos provocar uma certa misteriosa felicidade.


Posteriormente à análise do romance, escolhi destacar diversos momentos da acção, pelas boas camadas de humor e ironia:

“Habituado aos exageros sensoriais da rainha, o rei encolheu os ombros e regressou à espinhosa tarefa de descobrir um presente capaz de satisfazer o arquiduque maximiliano de Áustria.” – Páginas 14 e 15

“Ajudai-me a descer, esta conversa fez-me tonturas. Com a ajuda do secretário e dos dois pajens, o rei logrou descer sem maiores dificuldades os poucos degraus que havia subido. Respirou fundo quando sentiu terra firme debaixo dos pés e, sem motivo aparente, salvo, digamos talvez, já que é ainda demasiado cedo para sabê-lo de ciência certa, a súbita oxigenação do sangue e o consequente renovo da circulação nos interiores da cabeça, fê-lo pensar em algo que em circunstâncias normais seguramente nunca lhe ocorreria.” – Página 25

“A rainha sorriu também, ao mesmo tempo que juntava as mãos num gesto de agradecimento que, passando em primeiro lugar pelo arquiduque maximiliano de áustria, tinha a deus todo-poderoso como último destinatário. As contradições que andavam a digladiar-se no íntimo da rainha haviam chegado a uma síntese, a mais banal de todas, ou seja, que ninguém foge ao seu destino.” – Página 29

Neste último extracto está presente conjuntamente o primeiro momento em que é perceptível as verdadeiras moral e essência da acção.

Apreciação Estética:
Ao longo de toda a obra são-nos apresentados registos de língua popular, familiar e cuidado, de forma sempre original e adequada, condimentados com um fortíssimo tom irónico e humorístico.
Examinando toda a narrativa, é de acentuar a intriga verdadeiramente original e cativante, colocada em palavras humorísticas e conotadas em críticas sociais. Em todas as frases, até mesmo nas mais curtas, é possível encontrar um segundo significado nas palavras, que, desse modo, humorizam a obra. Em “A Viagem Do Elefante”, a falta de pontuação e de maiúsculas obrigam, mais uma vez, os leitores a concentrarem-se na obra diante deles.
O narrador é preferencialmente heterodiegético, sendo que, por vezes, quando assume o pensamento de algumas personagens, homodiegético. Além disso, revela uma parcialidade a favor do Subhro, o tratador do elefante Salomão. São profundas as constantes críticas pessoais à corte e a favor do pajem.
Durante todo o livro, a narrativa é apresentada sempre com base nos difíceis e longos trilhos que o elefante percorre.