Autor: José Saramago
Título: "Memorial Do Convento"
Editora: Caminho
Local de edição: Lisboa
Ano de publicação: 2005
Edição: 35ª
Compreensão:
Na obra "Memorial do Convento" desenrolam-se, simultaneamente, duas histórias distintas: a relativa à construção do Convento de Mafra e a relacionada com a invenção da passarola.
Na história da construção do convento, as personagens principais são o rei D. João V e sua esposa, D. Maria Ana. Estes vivem um casamento sem amor, baseado em interesses políticos. Até mesmo a persuasão de fazer o rei prometer construir o convento é cínica.
Em contrapartida, a relação de Blimunda e Baltasar assenta num amor verdadeiro e eterno. O casal, juntamente com o padre Bartolomeu, forma o núcleo mágico, trágico e central do romance. O padre vive com a obsessão de construir uma máquina que voe: a passarola.
Interpretação:
O romance enfatiza essencialmente os grandes contrastes entre as vidas das duas camadas sociais, povo e nobreza, salientando sempre o facto de a corte viver em aparências, ridicularizando-a.
Pelo título da obra somos levados a crer que a história principal é a da construção do Convento de Mafra. Contudo, na realidade, o cerne da acção está inerente ao trio Bartolomeu, Baltasar e Blimunda. Esta última é uma mulher com algo fora do normal: quando em jejum, consegue ver as pessoas por dentro.
Durante todo o livro, o narrador expressa a elevada relevância do povo. No final da leitura do mesmo, comparando os feitos do padre Bartolomeu com os do rei, percebemos onde reside a completa razão do narrador. Enquanto que o rei mandou construir (simplesmente) mais um convento, o padre inventou a passarola, levando toda a Humanidade a evoluir cientificamente.
Reacção Afectiva:
"Memorial do Convento" foi a primeiro obra que explorei do prémio nobel José Saramago. A leitura deste romance não aconteceu somente uma vez. Este facto pode-se explicar pela enorme qualidade do livro.
A primeira que o estudei foi por desafio do meu ex-professor de Português, Prof. António Pires. Na altura a obra revelou-se uma grande surpresa. Envolta em originalidade, percebemos em todos os detalhes da inteligência do autor. As ironias, os temas escolhidos, as comparações, as metáforas, o tom divertido, a linguagem e até as frases longas e pontuação em falta são factores que obrigam qualquer leitor a disponibilizar grande atenção ao que está a ler, acabando por se envolver pela magia da intriga.
Por contemplar personagens históricas, o "Memorial do Convento" levou-me a reflectir se realmente a corte de D. João V levava a vida daquela maneira e se o preconceito e a discriminação eram assim tão existentes.
De todos os momentos cómicos da obra, agradou-me imenso a primeira ironia que encontrei, pois deu-me sinais de estar diante de uma obra surpreendente:
" (...) Despiram-nos os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e do estilo, passadas as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias de santas que tivessem trespassado donzelas, e isto se passa na presença de outros criados e pajens, este que abre o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, outro que lhe modera o brilho, dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei, um dos fidalgos rectifica a prega final, outro ajusta o cabeção bordado, já não tarda um minuto que D. João V se encaminhe ao quarto da rainha. O cântaro está à espera da fonte. (...)" - Página 13
Apreciação Estética:
Ao longo do romance são-nos apresentados registos de língua popular, familiar e cuidado, de forma sempre original e adequada, combinados com um forte tom irónico e, por vezes, humorístico.
Por toda a estrutura da narrativa, esta é deveras interessante e cativante, capaz de prender os leitores. A intriga não é misteriosa mas mágica, contendo vários elementos simbólicos (Sol, Lua, número 7, ...) e fantasia (poderes da Blimunda).
O narrador é preferencialmente heterodiegético, sendo que, por vezes, quando assume o pensamento de algumas personagens, se torna homodiegético.
Ao longo do livro, a narrativa é apresentada sempre baseada no paralelismo entre as duas histórias distintas.

1 comentários:
Muito interessante o teu blog.
Obrigada pela visita e pelo comentário.
One
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